
05.03 — 30.04.2021 · Espaço d'A Camponeza, Coimbra · XXIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra
O mundo da vida quotidiana, conceito desenvolvido por Schütz, vai além da realidade quotidiana. Com frequência abandonamos a atitude natural a fim de imaginar mundos fictícios e fantasias. Somos capazes de transcender a quotidianidade por meios de símbolos, modificar a nossa atitude natural e voltarmo-nos para diferentes esferas da realidade. Quisemos procurar esse mundo nesta casa. Quisemos sentir o espaço, tocar as paredes, ouvir o silêncio, comunicar com quem já lá passou. A ruína é o nosso ponto de partida. A decadência inspira-nos e transporta-nos para campos místicos. Faz-nos olhar para a ironia do presente e recorrer à sabedoria divina. Queremos limpar, queremos chamar aqueles corpos que por lá passaram. Para isso precisamos de nos eliminar, de não sentir nada. Coabitar e coabitar-nos para nos mesclarmos, para deixar que as poéticas se cruzem e os rituais se estabeleçam.
O nosso teste à solidão é tecer a própria solidão, como na tela de Penélope que se expande desde o varandim até às ruas labirínticas de tradição árabe.
Procedemos à limpeza. Somos uma espécie de xamã ostíaco que parte para a sua viagem de negociação após a inalação de substâncias tóxicas. Até Foucault se rendeu às loucuras dionisíacas na sua viagem a Death Valley onde, anos depois, os ossos de Patrícia, a filha adotiva e amante de Castañeda, foram descobertos. Não se sabe se à conta do espírito poderoso da datura, a erva do diabo, que vemos espalhada pela cidade e que invade agora as paredes deste espaço doméstico.
Fazemos oferendas como memória de gostos e sabores quotidianos, queremos comungar com os deuses, pois estes revelar-nos-ão segredos escondidos no passado. Apelamos à libertação do cosmos orando à Virgem Maria, protegida do pecado original, na mesma cidade onde se deu a iniciação a este culto e no país que a escolheu como Rainha.
Esta espacialidade sob a forma de casa é onde a energia se desprende e materializa em aparições espectrais. Procuramos ancestralidades. Aqui, o mundo visível e o mundo invisível coexistem.
Susana Rodrigues, 2021
Habitar-se | Coabitar-nos
A Camponeza, Coimbra · 2021