
19.06.2026 — 22.08.2026 · Associação Alfaia, Loulé
A partir de pinturas antigas, podemos aprender algo sobre os amuletos. Muitos destes objetos sobreviveram até aos nossos dias, sobretudo quando pertenciam a crianças da aristocracia, graças ao valor dos materiais utilizados e ao cuidado com que foram preservados. Estas crianças, pela sua posição social e riqueza, eram frequentemente alvo de inveja e encontravam-se expostas ao olhar constante dos outros. Nesse contexto, os amuletos assumiam uma função protetora, procurando afastar o mau-olhado e outras influências consideradas nocivas.
A imagem de um amuleto com a mão aberta é comummente designada por Khamsa, Hamsá, ou Mão de Baraka. Diferentes nomes para um mesmo gesto ancestral. Presente em culturas e religiões distintas, a mão aberta atravessa séculos como símbolo de proteção, bênção e transmissão espiritual. A origem do nome Baraka remonta ao árabe, onde "barakah" significa "bênção" ou "prosperidade". Este conceito é amplamente valorizado nas culturas do Oriente Médio e norte da África, onde a noção de bênção transcende o aspecto material e se relaciona com a gratidão, a proteção divina e a felicidade.
Se recuarmos no tempo, as imagens de mãos abertas remontam à arte paleolítica. Estão presentes em Espanha, por exemplo, nas grutas de Castillo e de Altamira. Como símbolo, é anterior às religiões abraâmicas e era associado à deusa Tanit pelos fenícios. O símbolo é adoptado pelo Islão com o nome “Mão de Fátima”, filha mais nova de Maomé; pelo Judaísmo com o nome “Mão de Miriam”, em homenagem à irmã de Moisés; e, pelo Cristianismo, “Mão de Deus”.
Hoje, a Khamsa está em todo o lado. Do doméstico e privado para um símbolo de resistência; de amuleto para elemento decorativo. Nos banhos islâmicos de Loulé surgiu diante de mim como um pequeno vestígio do Al-Andalus quase invisível, e acabou por me revelar uma geografia inesperada. Na palma de uma mão uma cartografia partilhada, uma revelação que deu impulso a este projeto, mais tarde ampliado pelos “encontros” com autores como Adalberto Alves, Adonis, Eva-Maria von Kemnitz e Ibn Al-Arabi.
O Khamsa como símbolo de fluxo de graça divina, também o encontrei desenhado em um fragmento cerâmico pertencente a uma pia de abluções do período Almóada, no Convento de Nossa Senhora da Graça em Tavira.
Na tradição sufi, corrente mística e contemplativa do Islão, a mão de Fátima oferece proteção contra o mal. Para os Sufistas, círculos e espirais associadas ao símbolo solar têm um simbolismo especial devido à sua simetria e construção. É a forma geométrica mais perfeita e reflete-se em algumas das práticas: na roda ou rotação, ou oração feita em círculo. Trata-se do símbolo da existência. Al- Buni, sufista e matemático, descreve combinações de letras, nomes divinos, números e quadrados mágicos que deveriam ser escritos segundo regras específicas, em determinados momentos astrológicos, com intenções concretas.
Para o poeta Adonis, ao contrapor o movimento religioso Sufista com o movimento estético do Surrealismo, a razão e a lógica podem revelar-se insuficientes, uma vez que se fixam na parcialidade das coisas e procuram respostas universais. A resposta constitui o fundamento da razão, que encara a existência como um problema a resolver. O sufismo e o surrealismo, pelo contrário, entendem a existência como um mistério; mais do que explicá-lo, procuram estabelecer uma união com ele.
Num tempo em que a razão procura respostas para tudo, André Breton recordou-nos, há 100 anos atrás, a importância de reconhecer as ciências esotéricas e de preservar o espaço do mistério. Lendas, amuletos, cosmologias, alquimia ou práticas espirituais não surgem aqui como relíquias do passado, mas como formas de imaginar outras relações com o mundo. É esse o lugar da Mão de Baraka: um símbolo que atravessa culturas, religiões e épocas e que permite a união de povos. Lembra-nos ainda que nem tudo o que orienta a vida humana pode ser reduzido à lógica ou à racionalização.
Susana Rodrigues Junho 2026
— Adonis“Em certos momentos o Homem precisa de algo diferente para além dos livros, da razão, ou conhecimento para falar consigo próprio. Uma árvore, uma pedra, uma montanha ou o fluxo do rio.”
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