
Parte I · 04.05 — 24.05.2024 · Espaço Fisga, Porto / Parte II · 29.06 — 25.08.2024 · Galeria Trem, Faro
Dois anos antes de "A Passage to Bangkok" da banda Rush era dado o nome de código "Bangkok" ao comando de operação da revolução de Abril, levada a cabo em terras algarvias. Dez mil quilómetros a oeste e seis meses depois, inspirados pelas revoltas anti-governamentais, iniciadas por estudantes na capital da Tailândia em outubro de 1973, foi levada a cabo a operação da revolução no território ainda isolado do Algarve, incluído à última da hora, com o objetivo de ocupação dos transmissores e repetidores no alto do Fóia. E só o foi por insistência de dois capitães locais. Até na revolução democrática do país, que este ano celebra os 50 anos, os habitantes desta região do Algarve tiveram que lutar pela sua inclusão.
A norte da capital, no Porto, o cenário era bem diferente. No Centro de Instrução de Condução Auto nº1 eram planeadas com detalhe as operações para tomar o quartel-general. O que acabou por acontecer sem grandes incidentes e sem resistência. Mas enquanto os revolucionários eram celebrados pelo povo no final da tarde do dia 25 de abril de 74 na Avenida dos Aliados, no Porto; no Algarve, essa celebração só aconteceria dois a três dias depois; tal era a distância social e política face ao que acontecia no resto do país.
Decorreram cinco décadas desde a operação Bangkok e esse atraso crónico persiste. Como se a região mais a sul do país fosse ainda um reino independente deixado à sua sorte, o outrora chamado Reino dos Algarves. O último a formar o território que conhecemos atualmente por Portugal.
Num mundo que em pleno século XXI ainda mata populações pela conquista de território, preferimos acreditar na teoria de que D. Afonso III terá estabelecido um pacto amigável com os mouros que, segundo consta, aceitaram pacificamente a aliança portuguesa. Mas ainda hoje a tutela da região do Algarve é confusa, pois o Rei espanhol ostenta o título de "Rey de Los Algarves".
Sem entrar em polémicas de proveniência, um território é definido, sobretudo, por quem o povoa e habita. Como aqueles que fizeram as casas caiadas de branco com as suas chaminés particulares na sua diversidade de expressões construtivas e arquitetónicas, conseguida através dos vários tipos de pedra que se encontram no solo e sub-solo algarvio, como o xisto e o calcário. Mas também os que mandaram fazer as mansões e casas de luxo em estilo resort no período pós-revolução, através do desbravar de zonas de mato junto ao Parque Natural da Ria Formosa. Um oásis para estrangeiros e para a comunidade que ali vive. Um outro Algarve, onde o racionamento da água não se parece aplicar, não vá perder-se aquela que é a maior fonte de rendimento da região. No Ludo, a melodia ao ar livre que nos oferece a cotovia-de-poupa e o galeirão-comum é oprimida pelo som das betoneiras e compressores. Nos mercados, as cançonetas dos peixeiros atrás das bancas confundem-se com as conversas de turistas curiosos em busca de experiências locais, apesar dos locais preferirem as grandes superfícies com peixe estrangeiro. A paisagem natural que varia entre o verde, amarelo, vermelho e, claro está, o azul, é constantemente interrompida por grandes placas de publicidade que tomam o lugar do pinheiro-manso. Só mesmo a palmeira-anã vai conseguindo resistir à secura estival, à insolação e à pobreza do solo. Resta-nos o costume diabólico, proibido pelo cristianismo, o culto à Deusa Maia. Deusa da terra e da fertilidade. Mas em vez do ramo da giesta nas portas para" o Maio" não entrar; a sul enfeitam-se os Maios ou Maias logo ao nascer do sol do dia 01 de maio colocando-os à porta das casas, ou pelas ruas do Sotavento Algarvio. Afastam-se os perigos e os males do mundo com estes bonecos e bonecas em torno dos quais era costume dançar-se toda a noite. Como nas festas Joaninas a norte, onde se acendem fogueiras num agradecimento aos deuses pela boa colheita e para afastar os maus espíritos. Memória de outros tempos e a nostalgia da vida em comunidade. A revolução dos Três D trouxe-nos a liberdade e a abertura ao capitalismo, que galgou desde aí em força pelo país fora. Observamos o norte industrial, a partir de um cavalo, no topo do edifício modernista, o espaço do patrão e o espaço relegado ao trabalhador; a sul, a massificação da construção na linha costeira feita para o turista que coabita com os abrigos improvisados do algarvio. O território transforma-se e vai deixando marcas, resta-nos a sensibilidade dos que sabem olhar e captar para a construção de memória.
A revolução de 73 em Bangkok, que terá servido de inspiração para os capitães de abril portugueses, levou os destinos deste país asiático longínquo a um sítio bem diferente daquele que se vive atualmente em Portugal. No nosso caso graças ao Verão Quente que ditou os nossos destinos e, com isso, o território que temos hoje.
Susana Rodrigues, 2024