
15.05 — 23.06.2018 · Galeria Lehmann + Silva, Porto
A photograph is not only an image (as a painting is an image), and interpretation of the real, it is also a trace, something directly stencilled off the real, like a footprint or a death mask.
O poder da fotografia está, através da câmara fotográfica, na capacidade de fixar a aparência de um determinado evento. Tal como John Berger refere, ao contrário da memória, a fotografia não preserva em si um significado ou oferece uma narrativa. Se colocarmos de lado a fotografia que pertence à nossa esfera privada, ela transforma-se em objeto morto tornando-se alvo de usos e interpretações arbitrárias. É uma imagem construída por quem a faz, uma interpretação do real, ao mesmo tempo que é evidência da existência de algo ou de alguém.
É assim que deveremos olhar para o trabalho do artista Miguel Refresco. As imagens aqui expostas representam "traços" de territórios, pessoas e objetos. São vestígios, evidências, marcas que o artista captou seguindo interesses e experiências diversos. Há uma ligação à fotografia de rua americana em que as imagens vão surgindo seguindo a intuição e o instinto à medida que o artista vai percorrendo o espaço. É o caminhar sem destino sendo que a câmara é parte integrante e constante do seu dia a dia. Essa espontaneidade e improviso são contrários à ideia de narrativa, uma ideia que não existe na obra do Miguel Refresco, pois limita-o e retira força às próprias imagens que vai construindo.
O conjunto de imagens aqui expostas pertencem a várias séries que o artista foi agregando no seu trabalho. Relacionam-se com viagens que fez a locais como Itália, Espanha, Croácia, Montenegro, Grécia, seguindo a sua curiosidade e vontade de conhecer o que o rodeia. As imagens caracterizam-se pela plasticidade pictórica numa resistência a qualquer possibilidade narrativa ou comentário social. São escolhas espontâneas num mundo tal qual nos é apresentado e numa linha que atravessa o romantismo e o realismo. Há também uma interação entre o natural e o edificado nas suas imagens, como no caso da que retrata um dos fiordes no Montenegro interrompida por aquilo que parece ser uma baliza de um capo de futebol. Noutras aparecem elementos descontínuos, heterogéneos, que não pertencem ao mesmo mundo. É o caso da imagem das freiras caminhando junto a paredes grafitadas; esta mesma dualidade que atraía Roland Barthes quando confrontado com as imagens de Koen Wessing. Ou então a imagem do homem de costas como símbolo da experiência romântica da natureza, sozinho nas alturas a olhar em direção ao horizonte para um ponto inatingível. Uma imagem quase sublime não fosse a estranheza da grande tatuagem.
A cor é também parte fundamental no trabalho de Miguel Refresco, assim como a abstração, sobretudo quando fotografa de perto objetos isolados como a lona do camião, o candeeiro do teto, uma simples palmeira, ou até uma coberta. Tratam-se de traços, fragmentos, pequenos detalhes que desligados das características visuais que lembram o referente transformam-se em imagens panssémicas.
Para além do trabalho de fotografia é apresentado um vídeo, da autoria do mesmo artista, em que a narrativa incide no desmontar do quotidiano numa lógica infantil e pueril, em que se fala sobre o protocolo e as convenções; a questão do guardanapo no colo, das tampas de sanita que não se seguram, e até dos cordões que deverão ou não ser apertados. É o divagar sobre o gesto, o vestígio, aquilo que faz ou não sentido. Uma espécie de discussão absurda àcerca da urbanidade.
Esta exposição traz-nos, assim, até ao mundo de imagens contruído pelo Miguel Refresco. Um mundo que está intimamente ligado ao tempo do artista, pois não é possível fotografar o que já foi ou o que será. Sem o pretensiosismo da narrativa, esse passa também a ser o nosso tempo.
Susana Rodrigues, 2018
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